As conversas que acontecem quando ninguém está olhando
Há diálogos que nunca chegam a acontecer em voz alta.
Eles não acontecem na mesa de jantar, nem na terapia, nem durante uma discussão. Acontecem em um lugar muito mais silencioso: dentro de nós.
São perguntas que evitamos porque, quando surgem, algo se move. Certezas começam a ruir. A imagem de quem acreditávamos ser, começa-se a se desfazer.
Na Psicologia Analítica, Carl Gustav Jung dizia que aquilo que permanece inconsciente não desaparece. Apenas continua vivendo nas profundezas da psique, influenciando nossas escolhas, nossos relacionamentos e nossas dores.
Talvez seja por isso que algumas pessoas nos despertam sentimentos desproporcionais. Talvez seja por isso que certas discussões parecem repetir o mesmo roteiro durante anos. Talvez seja por isso que continuamos presos a histórias que jurávamos ter deixado para trás.
As perguntas abaixo não foram escritas para serem respondidas imediatamente.
Foram escritas para serem habitadas.
Observação: Leia devagar.
Se alguma delas provocar silêncio, talvez ela tenha encontrado exatamente o lugar onde precisava chegar.
Uma conversa em um ritimo quase socrático:
Leitura de 3 minutos
— Tem um nome que você evita dizer. E, quando alguém o pronuncia, você sente uma aversão difícil de explicar.
— Eu sei.
— O que exatamente essa pessoa fez, para merecer esse lugar dentro de você?
— Ela faz o que quer sem pensar nas consequências.
— E o que você reconheceria, se tivesse coragem, nela em você.
— Isso é diferente.
— É mesmo?
...
— Há uma versão sua que você deixou de fora da conciencia, há muito tempo, trancado em algum cômodo da casa, que você já nem lembra mais a localização exata.
— vamos chamar essa parte sua de sombra, essa parte esquecida há muito tempo.
— O que sua sombra queria lhe dizer, antes de ser silenciada?
— ...
— O que custaria, hoje, deixá-la entrar? Não para governar. Mas para ser ouvida.
— Tenho medo do que ela diria.
— Eu sei.
...
— Sabe aquela discussão. A do prato sobre a pia, do horário, do comentário feito de passagem.
— Foi sobre isso mesmo.
— Tem certeza?
— ...
— De quem era a raiva que apareceu ali?
— Do prato na pia; do horário; ou talvez do comentário?
— Talvez a pergunta não seja "o que ele fez comigo".
— Então qual é?
— O que, em mim, precisava que ele fizesse isso — para eu continuar sendo quem sempre fui?
— Não entende.
— O prato na pia pode ser a chave para abrir o comodo esquecido, e convidar a sua sombra para o jantar.
— Não tenho resposta para isso.
— Eu também não tinha. Para as minhas.
— E o que você fez?
— Parei de fugir da pergunta. Peguei a chave, abri o cômodo e convidei a sombra para um café.
Nem toda resposta vem imediatamente
Existe uma expectativa de que compreender a si mesmo seja encontrar respostas. Mas, na prática clínica, quase sempre o primeiro passo é diferente: aprender a permanecer diante da pergunta.
A psique raramente fala através de frases prontas. Ela fala por sonhos, sintomas, repetições, medos, relacionamentos e emoções que parecem maiores do que a situação que as despertou.
Quando deixamos de fugir dessas perguntas, algo começa a mudar. Não porque encontramos uma explicação perfeita, mas porque deixamos de lutar contra partes de nós que pediam para ser vistas.
Talvez você tenha terminado esta leitura sem nenhuma resposta.
Se isso aconteceu, ela cumpriu seu propósito.
Algumas perguntas não existem para encerrar uma conversa.
Existem para iniciar uma transformação.